A sociedade ocidental considera-se livre para criticar o governo do presidente russo Vladimir Putin, principalmente quando o assunto envolve a guerra na Ucrânia, mas dificilmente a coragem dos “especialistas” em depreciar o líder russo deveria ser exaltada.
“Para avaliar a extensão da loucura de Putin para além dos horrores que desencadeou, basta recordar que, em 2013, 80 por cento dos ucranianos tinham uma opinião positiva sobre a Rússia”, lembra o jornalista Marco D’Eramo, em artigo publicado no site New Left Review.
Ao contrário da bravura dos russos que arriscam suas vidas ao criticar Putin, dificilmente os ocidentais deveriam celebrar essa “coragem” e, segundo o jornalista, não se pode nem mencionar a covardia do ditado “nós armaremos você e você lutará”. “É muito fácil bancar o duro com a vida de outras pessoas”.
A divisão de mundo entre o bem e o mal foi o que definiu o macarthismo na década de 50, mas o que acontece hoje é definido pelo jornalista como “Brejnevismo Ocidental”, em referência ao ex-presidente da União Soviética Leonid Brejnev.
“O que é exigido dos membros da OTAN é a adesão inabalável a uma ortodoxia, exigindo um nível de autocensura que recorde o que o físico atómico Leo Szilard disse sobre os americanos durante a Guerra Fria: “Mesmo quando as coisas estavam no seu pior, a maioria dos americanos estava livres para dizer o que pensavam pela simples razão de que nunca pensaram o que não eram livres para dizer””, afirma D’Eramo.
Um ponto que o articulista considera ‘revelador’ envolve o uso do termo “império”: enquanto o termo é usado constantemente na Rússia, ele quase nunca é aplicado nos EUA, que se preocupa apenas defender-se contra agressores ignóbeis.
“O fato de os EUA terem mais de 750 bases militares em 85 países é um detalhe irrelevante (a título de comparação, o Reino Unido tem 17 bases militares no estrangeiro, a França 12, a Turquia 10, a China 4, a Rússia 10, das quais 9 estão em países dentro do fronteiras da antiga União Soviética)”, diz o articulista, lembrando ainda as dezenas de guerras e golpes de Estado perpetrados pelos norte-americanos.
Como lembra o jornalista, os valores ocidentais parecem funcionar de forma intermitente, mas no jogo das grandes potências a questão engloba inclusive a exportação de um discurso de “defesa de valores” – “melhor ainda se forem exportados através de bombas de fragmentação proibidas por uma convenção da ONU assinada por 111 estados (mas não pelos EUA, Rússia, Ucrânia, China, Índia, Israel, Paquistão e Brasil). As bombas de fragmentação tornam os valores ocidentais ainda mais convincentes”, pontua.
José de Almeida Bispo
17 de setembro de 2023 9:30 pmConverse. Converse muito. Mas não se esqueça de preservar a pedra na mão, atrás das costas. Toda aquele que acusa, o faz em 80 por cento dos casos para pré justificar sua agressão em curso. Se Stalin não tivesse começado a corrida atômica os gringos já teriam engolido a Rússia toda. Por terceirização, é claro.